Brincar é coisa séria.
A brincadeira molda os sentimentos, educa os afetos e até determina a forma de sonhar.
ALGUÉM JÁ FALOU QUE O HOMEM NÃO ESTÁ COMPLETO senão quando brinca. A criança ao brincar não só repete situações prazerosas como também elabora aquelas que lhe são traumáticas ou amedrontadoras. Tem mais: nos momentos lúdicos e aparentemente simples é que surgem diálogos como o que ouvi na praia, enquanto duas crianças construíam castelos de areia: “A gente morre quando é muito, muuuito velhinho”, diz uma delas. A outra responde: “Não é assim, meu tio morreu e era bem jovem”. Aí a primeira, sem parar de fazer o fantástico castelo, retruca: “Então seu tio se enganou”. Delicioso!!!
Frases estereotipadas disparadas a esmo, tipo: “brincar é coisa de criança”, “esse adulto é um babaca, brinca feito criança” e outras pérolas semelhantes, mostram o absoluto desconhecimento que a sociedade em geral tem sobre o que significa brincar na evolução psicossocial infantil.
Quando reduzimos o brincar a um simples divertimento, bagunça ou passatempo, estamos desqualificando ao mesmo tempo a criança, a pedagogia... e a vida. Brincar molda os sentimentos e educa os afetos. Tem brincadeiras para lidar com os medos, as que representam rituais de passagem, as que imitam e constroem os futuros papéis. É disso que se trata quando elas brincam de bicho-papão, de esconde-esconde, quando cuidam e dão de mamar à boneca/filha, quando vendem coisas, trabalham no escritório ou lutam contra bandidos e fantasmas.
É maravilhoso quando são criadas as condições necessárias para que uma criança brinque livre e espontaneamente. Ela precisa sentir que seus pais estão perto, porém sem controlar ou interferir em seus movimentos, projeções e fantasias, a não ser quando solicitados. Nos modernos brinquedos computadorizados, tudo já está pronto e definido, exigindo apenas destreza visual e motora em detrimento da criatividade. O fabricante “rouba” literalmente a possibilidade de a criança colocar em prática suas fantasias. Felizmente ainda assim pode demonstrar suas habilidades engenhosas e afetivas brincando com uma simples caixa de papelão, com argila e com brinquedos simples, em locais “não poluídos” pela técnica, como as escolas maternais ou a casa dos avós.
Os brinquedos são alvos de projeções como os objetos da vida cotidiana, com uma enorme e importante diferença: a criança tem domínio sobre eles, pode quebrá-los quando descarrega sua raiva, e eles continuam sendo brinquedos e portanto substituíveis. A cronologia do brincar começa na barriga da mãe, quando o bebê brinca espontaneamente com seu próprio corpo, que é usado como sujeito do jogo ou estimulado pela mãe quando canta ou acaricia a barriga. As respostas do bebê são os conhecidos chutes, que motivam a mãe para novas brincadeiras.
Ao nascer acontece o “jogo do encontro”, colorida alquimia de cantigas e contato que estimulam os pais e o bebê simultaneamente. Assim começa a adaptação a esse novo e vasto mundo. Nos primeiros anos de vida a criança aprende e ensina simultaneamente muitas coisas no contato lúdico com os pais. Essa viagem vital através das brincadeiras vai determinar a forma de sonhar, desejar e até de receber o próprio filho. Esse caminho que parece muito pueril (o brincar) é na realidade por onde flui incessantemente a humanidade.
Artigo baseado no capítulo “A Criança e o Brincar” do livro E Agora o Que Fazer? A Difícil Arte de Criar os Filhos, de Leonardo Posternak e Magdalena Ramos. (Ed.Best Seller)
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